segunda-feira, dezembro 19, 2016

Entre o Corvo e a Escrivaninha



- Sabe qual é a diferença entre o corvo e a escrivaninha? – Perguntei sem que ela soubesse da resposta.

- Não – Ela coçou a cabeça, enquanto a colocava de lado, pressionando um leve dedo em seu queixo.

- O primeiro anuncia a morte, o outro decreta a morte. – Disse de uma vez, sem enrolar. Parecia simples, depois de tanto me perguntar sobre a mesma coisa.

- Eita. – Ela apenas respondeu.

- É um dos primeiros enigmas do Chapeleiro Maluco de Alice no país das maravilhas.

- Mórbido. – Fez um leve movimento com a boca, como se estivesse pensando.

Continuei. - E disse a lagarta a Alice "quem és tu?" – E apenas deixei a questão soar no ar, enquanto ela me olhava sem entender.

Começo a sorrir, quase sem motivo. As ironias que tanto nos pregam peças. – Engraçado! Lembrei da história. Lembrei de mim... – Desfilava as palavras, enquanto amargava um sorriso incontido.

- E Alice disse para você “Quem és tu, olhos profundos e enigmáticos? ”. – Poderia julgar que ela falava de mim, mas, mudei o foco bruscamente.

- Sabe por que as pessoas se incomodam com você? – Lancei, ao tempo em que assistia a cara dela incompreendida. Fiz questão de explicar que, “você” nesse caso é o outro, que não é você, mas não seria eu. Seria o outro que vive pegando no seu pé. E repeti a questão. - Sabe por quê?

Ela voltou a me olhar e perguntou curiosa – Por que?

Voltei meus olhos a um ponto qualquer, posso jurar neste momento não estar em mim. Seria o mínimo, talvez, e recomecei a falar. - Porque temos algo especial que eles não têm. Nós temos os sonhos que eles esquecem de realizar. Nós temos o mundo que eles esquecem de viver. Nós temos momentos que eles nunca poderão ter. 

Parei para respirar, lembrei de como isto parecia fácil e ao mesmo tempo demasiadamente complicado, mas continuei.

- Sabe por que você incomoda? Porque você lembra como tudo pode ser especial e imprevisível. E não fazer nada assusta. Não reagir causa temor. Não gritar é inaceitável. Viver em paz é opressivo...

Ela acrescentou algumas palavras aquele devaneio, dizendo que...

- Nesse mundo previsível, qualquer desvio é visto como anormal... – Não a deixei continuar. Talvez não a tenha escutado.

- .... Tentar ser contra o mundo é um absurdo e você é fugaz demais para ser simples, para querer viver o mesmo, para julgar que nada é como antes... – Ela deu vazão aos meus devaneios, me interrompendo outra vez.

- Primeiro você tem que estar em paz consigo. – Não é uma competição, mas, de todo modo, me intrometi outra vez.
 
- ... Você causa temor simplesmente porque você lembra aos outros tudo que eles foram e escondem em um cantinho. Porque você simplesmente não esqueceu de acreditar.

- Pessoas amargas tendem a tirar sua luz. – Faz sentindo. Todo o sentido do mundo, refleti.

- Sabe por que você assusta? – Talvez eu fingir não mais estar aqui.



Allyne e Marcela
20/12/2016

quarta-feira, julho 27, 2016

Conto de nº 1



"Era uma vez um reino encantado, que não tinha palácio. Suas cercas eram as árvores e seus guardas os animais. Tudo lá era verde e o céu era azul, até chegar a noite e tudo mudar. 

A floresta ganhava vida e a lua reinava no céu. Existiam seres do bem e do mal, mas todos viviam em harmonia, sobre a lei da felicidade. Até a chegada de um eclipse bagunçar o reino, pois, todos aqueles que eram malvados se tornaram bons e os bons extremamente malvados.

Então, uma bruxa e uma fada uniram forças para tentar reverter essa confusão. Elas rezaram ao deus fogo que trouxesse a luz e ao deus vento que afastasse as trevas, até que finalmente o dia chegou.
E todos os que foram amaldiçoados voltaram ao normal e puderam sorrir.

Fim".

Com Mar.